44

Alexandra teve certeza que um galo cantou na noite. Não deveriam existir mais galos, pois os quintais já quase nem existiam. Pensou que deveria ter sido uma lembrança da infância. Dera para ficar sentindo cheiros antigos. Memórias perdidas há tempos voltavam com uma força desconhecida e de forma tão abrupta que a transtornavam.

O galo, as galinhas no quintal. Um anúncio do dia.

Ela foi até a janela do apartamento e olhou as luzes distantes, nas ruas; brilhos amarelos, azulados e vermelhos em um pisca-pisca sem ritmo definido.

A casa grande de madeira, os primos e os irmãos a brincarem nas árvores, pela terra do chão. Com estremecimento e rubor recordou dos primos a se agarrarem com ela, brincando de casinha. Ela, a mãe que todos queriam dormir e roçar. Adorava aquilo. O corpo de criança entrava em êxtase. Os primos se revezavam naquelas sessões de abraços e movimentos lúbricos. Os mais velhos riam com cinismo, roçavam os paus duros nas carnes frescas de Alexandra.

Havia galos que olhavam aquelas cenas.

Havia frutos que exalavam cheiros naqueles momentos.

Uma mulher, tantos homens, todos eram dela. E ela amava cada um deles. Os irmãos eram mais tímidos, mas os primos a tratavam como uma amante deveria ser tratada. Pelo menos era assim que pensava quando criança.

Um dia, o primo Paulo morreu. Ela já vira a mãe matar muitas das galinhas do quintal, já havia enterrado um gato muito velho que vivia na casa. Tinha consciência da morte como uma viagem longa. Quem partia nunca mais voltava e quem ficava sempre acabava esquecendo o rosto, o cheiro ou mesmo as palavras, o nome de quem partia.

Para Alexandra, tão criança, o primo Paulo era o melhor “marido” de suas brincadeiras. Um pai carinhoso com as bonecas – os outros sempre tratavam com desprezo as suas filhas de plástico e de cabelos louros e brilhosos -, um marido que perguntava como havia sido seu dia e se as crianças tinham dado trabalho. Paulo sempre lhe beijava na face antes de deitarem e se roçarem desajeitadamente, com sofreguidão, sobre o lençol posto na areia fresca. Alexandra gostava de sentir a pele suada de Paulo, sempre com um perfume tão adocicado, com um gosto meio salgado a sair dos poros e a cair em sua língua.

No caixão, Paulo estava coberto de flores. As mãos de dedos finos e magros cruzadas sobre o peito. Os lábios sem cor e pequenos formavam uma boca delicada e parecida com as bocas das bonecas de Alexandra.

Esqueceria o rostode Paulo, seu cheiro e gosto, mas nunca lhe sairia da memória aquela boca pequena e perfeita, aqueles lábios levemente separados no meio, como a lhe pedir um beijo.

Enquanto todos choravam a morte de Paulo, Alexandra estava feliz por ele. Uma alegria que não demonstrava para não assustar as pessoas.

Quando a sala ficou um pouco mais vazia, aproximou-se do caixão. Olhou a tia, mãe de Paulo, seu rosto abatido, os olhos presos no vazio.

- Tia, me levanta que eu quero ver o Paulo e dar um presente pra ele.

A tia saiu do torpor em que se encontrava e atendeu ao pedido. Nos braços dela, Alexandra pôde ver com mais clareza o rosto fino e alvo do primo morto, aquela boca que tantas vezes beijara seu corpo e rosto. A menina pegou a pequena boneca que trazia consigo e a ajeitou sobre as flores, entre o tronco e o braço do menino inerte.

- É pra ele não ficar sozinho, tia. Paulo, fica com ela. É minha melhor filha.

Abaixou-se e beijou de leve a boca fria de Paulo. A tia começou a chorar e a colocou de volta no chão.

Alexandra nunca mais teve um primo que a tratasse com o mesmo cuidado, mas continuou a brincar com os outros sob a sombra da goiabeira.

Agora, olhando as luzes da cidade, sozinha, sem marido ou filhos, sem primos que pudessem beijá-la, insone na madrugada, tentava entender aquele canto rouco do galo e por que o dia insistia em não vir.

Alexandra estranhou o súbito silêncio daquela noite sem fim.

Ailson Braga
ailsonbraga@gmail.com
tel. (91) 3228-0376