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| Pré-amar
MME temos essas horas,
essas grandes águas de intensa devoção.
Do meu próprio caminho faço tua estrada
mar e não sei o que é meu, ou a ti
pertence por natureza, me entrego. Sei dessa febre
das águas e do teu corpo carrego essas marcas
líquidas. Traços do que ontem foste
doce e hoje és ácido fermentando as
raízes da várzea.
MMMeu destino tem essa
cegueira em que nasces lua dentro da minha pele.
O sal de tua água se faz pó em minhas
terras. E minha margem fica escrita de ti, porque
sei que de longe voltarás maré, assim
guardo sempre o caminho de volta. Segredo revelado
nesses cortes de proa, no silêncio noturno
do rio.
MMO rio que sou sempre
cala em mim tuas mãos. Trago tua voz sufocada
em minhas veias e silentes somos assim porque sabemos
que nessas águas tivemos as vidas traçadas.
Por viver pouco esse amor não importa, as
águas cumprem o fado e tua verdade se aflora
vida. Vitória-régia, lembrança
do amanhã, tua ausência.
MMAinda há algum
resto de lua. Nessas poucas horas deságuo
em ti. Sou todo abandono, mas não há
desespero. Os rios do meu avesso se escrevem lodo
em tuas pedras expostas. E aqui nos encontramos
carne. Agora sou águas de lanço e
pra ti me faço braços de mar, corpos
que se fazem palavra oceano.
MMDeságuo em
tuas águas e único, por um instante,
é esse rio-mar de nossa história.
Amanhã volto à mata e subo as montanhas.
Tu, à África e ao mundo. Mas aqui
fomos nós. E o que era barro, negro, sal
e azul distante, agora é só água
e uma outra história vindoura. Uma outra
lua. As águas vivas.
MMAlto-mar segues.
MMRio me entranho.
A cidade me tem.
MMBelém, essa
Veneza proibida.
MMAqui, a foz. Nossas
marcas, marés subterrâneas.
MMDas águas
eu vim, rio que sou em ti.
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| Últimas
palavras de um barco
MMEu
sou minha margem proibida. Nasci de um amor gapuia
e minhas mãos líquidas me turvam a
vista. Eu mesmo me adoeço. Meu ânimo
se esvai, seca. Vivo verde escuro, segredo água
nessa face limo de minha proa. Marcas de toda pré-amar
sangrada. Eu me venço nesses glóbulos
de lodo silenciados. Faço-me vazante e me
revelo junco.
MMSempre
fui porto nessas águas. Agora, aqui de barro
e sangue, parto o que me é verdade e nunca
quis. Algo de mim se entrega, mas reconheço
que devo resistir. Reconhecer,verbo que exige distância.
Olho pra mim fora do meu corpo, suspenso no espaço
indivisível, a lâmina desse rio estrada.
Meu madeiro está vazio. Alguém espera.
MMNão
existo em mim agora, desengano-me nesse abraço,
o sereno corpo de uma verdade exposta. Silhueto-me
no meio de tantos outros eus que asfixiei em mim.
Todos me calam e leio a palavra ágrafa. Insinceridade.
MMO
trapiche existe pra que eu queira voltar. Benigna
água.
MMA
tarde desvenda a lançante, como é
úmido esse ar fêmeo. Vozes se encerram
nas velas, falam dos corpos que vêm dar na
praia. De várias marés se faz minha
partida, ímpar, agora, essa corda que me
desata. Água, uma possibilidade confidente.
O norte é a cidade acima. A beira, o sal
que me escorre do ventre. Recolho minha âncora
incrustada de corais.
MMSer
o rio, a história das águas. Taumaturga
vontade.
MMA
foz, a crença em outra carne. Lanço-me
água-viva.
MMO
que me move está submerso e meu porão
alaga um desespero quando se acusa cansado. Escrevo-me
na letra desse rio, desosso-me e abro minhas veias
barrentas. As águas se fazem força,
me arrastam e se dizem caminho. Não. O sentido
do rio também é dito no tempo das
minhas mãos. Meu nome está inscrito
nessa palavra água que busco. Palavra oculta
que deságua meu nome em outras terras.
MMEu,
o corpo presente. Minha pele, a água desnuda.
MMO
caminho nascido sobre as montanhas. De uma rocha
congelada o veio da vida. A nascente. A vida que
existe pra ser sofrida. Esse último instante
que se faz todo saudades. Todos sabem, as águas
cobrem as pedras. No cais do porto tu me dás
adeus.
MMEu
me despedaço inteiro e abraço tuas
correntes marinhas. |
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Daniel
da Rocha Leite
poema07@hotmail.com
tel 55 91 9621 6634 / 3272 7060 |
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