O quadro

O quadro perto, a janela aberta
entre nós
o céu aberto invade os olhos.
O vestígio do brilho
como a nuvem já perdida na pupila.

A figura na janela
soletra o inverno,
busca a equação das folhas e dos dias.
A calada boca do vazio
aberta
e a ânsia de tragar o mundo.
Esquece o dedo louco
riscando o resto da tinta que ordenava
a paisagem branca, azul.

Retrato da solidão
via-se no desenho
que os olhos guardaram
e agora encerram
na janela azul
da melancolia.
.

Anagrama

Inauguro a janela do outono
o vento e a sombra dos olhos
tecem o tempo da despedida.
Dou-te o beijo da verdade
e forjo as grades da mão
sobre a pele amada.

Na fornalha da noite
que a mão incendeie a flama das sílabas
e a boca soletre o sexo das letras,
o nome escrito na relva.
Corres louca na penumbra
lanças-me gritos cegos, roubas-me a luz.
Sob o leito rubro
gravita o astro da dor
o ardor noturno, a febre da língua.

Rasga
a página ferida,
a caligrafia da manhã
traceja o anagrama.
Com a fúria intacta
devasta
a folhagem, a idade
com a paixão tácita
gera
a seiva sonâmbula.
.

Um seixo

Porque repousa em ti
a grafia marítima das noites,
agrilhoas o músculo das areias insondáveis
e luzes revoltas do abismo fundo
dançam ocultas no teu corpo.

Naufrágios e prodígios,
a vertigem helénica e o olhar dos suicidas
gravaram em ti
o aceirado canto que concentras,
túmulo da mitológica palavra.

Sabes agora quanto vale um seixo:
ele guarda a fúria das marés.

Inabalável
sobre a madeira
renuncias o destino
a escandir outras tormentas.

Com peixes na constelação do sexo

inundas-me.
.

O olhar selênico
de Paulo Plínio Abreu

Murmurava a voz órfã
quando regressei
às lianas e raízes da memória
coando as ruínas da manhã
e o músculo da tormenta
intumescia a pupila siderada.

Não te procurava
mas o eco bramiu
sobre o vocábulo forasteiro
comungando a língua trágica
und er sieht ihre blicke glühn.

Entro em ti
na boca do teu silêncio
onde as órbitas de céus caídos
esplendem
no ventre das feras grávidas
e pairam eclipses
que só tu soubeste decifrar.
.

Trazes uma floresta dentro de ti

Aguardas o encontro colérico das águas
e inauguras a viagem,
a vaga do verbo eleito
trama a sua rota,
ecoa na explosão que arrasta o olhar.

O barco transportando terror
atravessa o delta esquecido da língua,
ventos póstumos escavam o fóssil
da voz longínqua a murmurar ainda.

Crescem urzes na linguagem
que abandonaste,
sorves a clorofila da palavra tempo
e inoculas em ti mesmo
o veneno.

Escoa
a maré que ajudaste a gerar
mas nenhum porto aceita a tua âncora.
Inflama
o pus que recebeste como dádiva
na voragem da manhã coagulada.

Trazes uma floresta dentro de ti
a tremer alucinada,
plantando estátuas de pânico
sobre o charco onde procuras teus ossos
e o silêncio cumpre o seu exílio.

Abres uma clareira no poema:
o abismo.
Jorge Henrique Bastos
jorgehbastos@hotmail.com
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