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meu coração
a carne negra

que sobrou
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....fizestes um pássaro
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................que impune voa
......em tuas asas
de ossos
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O Fazer da primeira pedra

devoro a asa
em vôos
viajo
 
volto um dia
e enterro o medo de partir
 
daqui não volto mais
invólucro-pedra
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atirar-me ao abismo
ao eco
ao aço das paredes
ao abraço de minhas asas
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retirar-me dos lugares
entre raízes
ser como as folhas.
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um dia sem a mesma sensação
dei-me à esmo pelos caminhos mortos
fiz a ponte
fiz da primeira pedra
atirar-se do rio como suicida
atirar-se bem longe
sem mira
para poder ter
o domínio
das mãos
tirar de perto a origem
a miragem do moinho
a moer grãos
de um passado liqüefeito
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nunca mais
viver de passagens
viver de miragens do mundo
viver de grãos
nunca mais.

dentro do pássaro
a palavra voa
livre - mente.

dentro do livro
a palavra
solta as asas

o livro é um pássaro
solto
nas palavras.

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"Blade runner"
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Ele
ela
bonecos de cera
na rua, piche
no ceu,
oito aviões supersonicos
nosferatu nos museus
um beijo que acaba no vacuo.

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Passaros mortos empalhados enfeitam os fios eletricos da parte mais antiga da cidade, cenas de cinema mudo, musica? Apenas o grito do vento seco batendo nos tubos ocos dos esgotos.
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The Poor

Pobre de mim, habitante impuro de habitat indesejável, há nobreza nos homens, olho com escárnio, por essas janelas de vidro, meu beijo sem carne invadir a palidez dos espelhos, a vida a passar esquálida, enfio-me no seu inusitado conhecer marginal extremo, deleitando-me nas noites estreladas nas mortalhas que me aquecem e mastigo todos os dias os vermes que me servem, como um excluído das mesas fartas do mundo. Meu excremento é seco, tenho olhos sombreados com fastio pelo futuro. O relento é minha estátua rarefeita no cotidiano do abstrato. Em resumo, não existo, não há marketing para mim (um absoluto absurdo anônimo da multidão a celebrar toda a estupidez). Uma mórbida causa a angustiar para o que não tem remédio. Minha aldeia são os viadutos concretos dessa cidade, pixados por minha arte "rupestre", suburbana, contemporânea e inspiradora de poetas bêbados. Pobre de mim. Sem portas, sem quintais, indigno à esmo, pertenço aos compositores enriquecidos por minha condição e sou incluído apenas nos discursos políticos dos pulhas e presidentes desse país.

Josette Lassance
jlassance@bol.com.br