Péssimo dia para o minério

Profecias velam o Nome do feto
Em muitas ninhadas e não vem.
Delas, um som impreciso te anuncia
E por isso te recebo, de carne, osso
Para ser o Nome que espero
.

Uma parca cabala

Cabeças decepadas
Tótens para vertigem
.
Teu livro retorna para a margem
Vidro e areia aprisionam o tempo
E ele é branco como a praia
 
Como ter uma folha seca de outono
Dentro deste livro em branco
As marcas d’água são cicatrizes
E contam histórias-mudas
Na escuta dos morcegos
Na irritação das ostras: A pérola
 
Que não sejas todos os nomes
Como estas roupas de passeio
Nem nomes para lembrar o caminho de volta
Para a casa aonde cresci por fora

Como um móvel oco em que os sons

Flácidos não te encontram: A porta.
Como nos péssimos dias para o minério
E o intento de, com olhos fechados,
Deitar mãos para reconhecer um estranho
Não como a fronte de um anfíbio morto
Mas o nascer para o estranho
E fazer nascer o estranho para si
 
Passagem branca e dourada
Apenas na sua costa; a luz
.
Este feto cujo Nome não vem
É como o frio que aprisionada até mesmo a morte
Queimando a sua própria maneira
Como o Silêncio, que é o mimetismo
de um bicho transparente
Como o Silêncio, que é uma palavra de loucos.

Miragem nº 2: Música das conchas

A mão que te estendi, em concha
Agora recobre o rosto, depois ouvido
Olvido eco para alhures.
Ou apenas rochas lisas de correnteza
E o rebojo macio para os seus cursos.
.

O som das correntezas

A Outra vida
ou a própria vida, houve dar.
.
Atos dissipados á minha revelia
Nas mãos a correnteza, a rocha.
E no veio maior, tu a lias
Palmas, montes que tiveram água
Emersas pedras, pomes como toalhas secas
(a língua é uma toalha molhada)
E as rochas lisas de correnteza...
.

A mão que te estendi, desliza

Esconde o teu olho para o deserto que ainda brilha.
.
Agora, vento para um rosto de areia
Essa minha mão diz :
- Musica das conchas está sempre guardada
- O que é verdadeiro, existe.
.

Topologia Submersa

Ao sul do corpo
Ao sul das horas
Minha mão espalmada, passa no papel
A pele, pálida.
Lisos, destoam do pensamento
Oposto que se insurge, insurreto
Redundante e crespo e postulado
Fluxo, que te procurasse...
Ao verbo imperfeito
.

Miragem obliqua

O homem é
Caminho deserto
Posto que, no centro do reflexo
Múltiplo de duas margens
Justapostas de praia.
.

Flor-das-pedras

A Eternidade é por
demais inextensa para
caber na prisão, mesmo
brilhando como estrela

      Alfred Jarry
.
O stacatto; são pétalas, despetaladas
Tal estrelas de calcário
Postas a premio num bazar de fósseis
Espécies marinhas.
Flor, pedra, estrela, palavras.
Da mater prima, são bastardas.
.
Arquitetura tal é a promessa de que haverá vida
Que pela forma, acende o que houvera
E pela textura, faísca.
Pelo calcário se impõe, e se apaga.
.
Karina Jucá
karinajuca@ig.com.br
tel 55 91 9635 5499