na canoa

a palidez inunda a proa
– na canoa debruçada
o que bebo do rio
não é a lua
sorvo o reflexo
da distância

(e tu, que sorves
no corpo da amada?)

escoando o barco
eu meço o peito vazio
a rima soa
sugerindo
mundos
na embriaguez da noite nua

(e tu, que surges
nos lábios de minha ânsia?)

desmaia a tez da lua louca
– é o líquido luar
que me amanhece
desfio a alma
no destino
da canoa

(e tu, que luas
derramaste em minha boca?)

Vigília

corri o dedo na vida
separei o espaço da noite
.
o golpe da memória desmonta a realidade
e entre o ocaso e a minha sombra
flutua escuro um silêncio de estrelas inúteis
– assombro-as com lágrimas
.
(Ah que solidão penumbra essa passagem)
.
sorri das trevas descobertas
.
no desafio do dia
inteira a vigília me pertence

Semblantes

Ninguém consegue assim amar os lírios
JORGE DE LIMA.......................
.
são os semblantes que toco
lábios espessos ao ar do rio
semblante extremo asas como cílios
cortes de desejo amargo
ninguém vive assim delírios sem amor
quietude nos verbos nos vazios
vozes – eixo dos teus olhos
amarantes de amar –
amargos doces olhos íris
os lírios
mansos de semblante
navegam
ventos amavios.


 

Entre amargura e paz

dorme um ser pequeno
no meu dia
e tanto doloroso
tanto impuro
apesar de alado
ser sereno
impiedoso
eros insepulto
e deserdado
vulto de um futuro
anjo de silêncio
ele me inspira
ares de vertigem
idéias mudas
de antes e depois
ele me fere
em mármore e
em chama
ele me faz
a voz rasgada
os dias de veneno
o olhar atroz
um ser me apaga
em texto de tortura
esmaga
ainda virgem
essa palavra
entre agonia e página
entre amargura
e paz.

Nasci

Eu nasci onde as aves quebram seu vôo
antes do mar
nasci muito depois da vida
quando gemem as ladainhas amargas
e sangram palavras de perdão
nasci da espuma de uma vaga
em rio barrento quando brancos cabelos
da sorte predisseram – a morte
nos meus lábios pousaria
muito antes dos olhos
se fecharem e os guarás de amor
sangrado desfiarem
o derradeiro sol.

Lilia Silvestre Chaves
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