Andarilhos

Qual o tarot que te venceu, ó delirante
amante pálido que enforca a lua?
Que palavras transgrediste?
De que luar vieste, ó homem triste?
– Vim de tuas letras pensamento
chamavas-me vento
e suspiravas
na loucura do presságio das figuras...
da morte que enfeixa as vidas
ao delírio escrito de teu corpo
tu suspiravas, ó melancolia.
Dizias de olhos lírios
como ao dia em que me viste:
– eu sou a noite que encerra a aurora
rouba-me às cartas,
sonha-me tua...

Não és livre meu verso

Não és livre meu verso
e nem prosa em desencanto
és tu
preso a quem te vê
és poesia

e prisioneira ao novo tema
eu canto e existo no poema

.
(que cego coração que face
ousou tocar-me a vírgula,
único vôo deste enlace
- sente o meu traço -
quem transfigura o
meu poema e que leitura
extrema fere o seu espelho
na agonia em que se lê?)

.
escuta amado que o tempo
desfalece

escuta
estremece a madrugada
.
solta a rima alada

em ti
ateia o rumo de fogo à noite
e vem
arder em meu compasso nu

Postal da noite

No canto da Praça da República
ao fundo aquarela do Theatro
diluída a paz e a igualdade
uma menina quase seios
quase homem
sorri
Nenhum anjo é mais triste do que o dela.

Quem?

Hoje, o sujeito é outro
e pensar sem sujeito
é liberdade e medo
(ou suave morte sem ternura).

Abre-se o espelho,
narciso dissoluto
(raramente eu era eco
e nunca imagem).
Na vida sem reflexo
perdi o meu olhar.

Hoje, quem, o outro,
a resposta, o bem?
Quem me respira?
O ar sem teu sabor
é verso sem leitura.

Arranco-me esse avesso
sem desejo e luto:
impeço-me de sentir.
A linguagem
é o segredo original,
mas sem resposta
qual palavra se mensura?

É outro, o hoje,
mesmas, as palavras.
A língua flutua,
incorpórea,
no poema.

Lentamente, o cosmos
me percebe:
constela-me o grito,
e retraça o meu destino
no estilhaço vivo
do instante mais banal.

Não há razão nem tempo

não há razão nem tempo em ser amada
enquanto as tardes desfizerem a vida
e no sono desvirtuem-se as manhãs
não há canto na melancolia
no quanto hesite a palavra luz
mas quando não houver segredo
e nem ruído que rasure a madrugada
se a verdade amordaçada
respirar
e de teus dedos escorrerem prantos
pelos anos de nunca e mais e tantos
tu te morrerás
e eu deixando enfim a nódoa
transparente
libertarei a aurora ao tom
da tempestade
e deixarei que me inunde
a paz
Lilia Silvestre Chaves
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