Arte Poética

Ah, o ofício,
as contorções da espera
entre a noite e a madrugada!
O litúrgico olhar abre cortinas,
o anjo adormeceu,
dança arbitrária
a minha barba de duzentos anos.
Quem poderá restituir-me intacto ao mistério
com o perfume de rosa não tocada?
Quem senão tu,
cântaro e fonte,
abrigo,
terra e pátria onde se esconde
a negra cicatriz que o peito ostenta?
Eis porque espero
(entre a noite e a madrugada)
para que salves
ou lances no infortúnio
o litúrgico olhar que em nova busca
apodrece sob um sol de desespero.

Auto-Retrato

Entre a espuma e a navalha sou legenda.
O espelho neutraliza o ângulo da morte,
a barba estrangulou a metafísica
e o problema do mal é bem remoto.
Aqui sim.
Aqui resistirei à mímica,
ao dicionário e ao laboratório.
(a herança do punhal brilha de novo
o fantasma de Abel não me intimida)
Vejo a testa crescer
entre espirais de fumo,
o olhar que não vacila
da ruga à pré-história
e o peito rasgado
pela fúria do poema.

Aqui sim,
aqui iniciarei a espécie nova,
aqui derrotarei o homem-harpa
e pronto estou para a descoberta do sexo.
O pincel dá-me o poder do patriarca,
a navalha reduz a timidez e o medo,
o palavrão rola na boca e salva o mundo.

Poema e Fuga
em Ré Menor

Sobre o piano - rosas
entre as rosas o azul
e o azul não era azul
era vermelho.
Tocavam Bach
e era como luz que transitasse
no mistério.
Todos estavam silenciosos
e no fulgor das pupilas
envenenadas pelo medo
havia uma estranha dor de morte prematura.
Minha mãe chegou-se a mim e disse fica,
meu avô me segurava do retrato,
meus netos me acenavam do futuro.
Porém eu estava sitiado
entre a fuga e a tocata.
A nuvem carregou-me adormecido,
varei a criação,
transpus o limbo,
quando acordei,
meu pai,
já era céu.

La plus que lente

O silêncio ligava
as cadeiras de um lado
com as cadeiras do outro.
As velas sufocavam em agonia
e a noite era maior no calendário imóvel.
Entre o ser e o não ser
erguia-se a memória,
e os sonhos passeavam
entre o jarro e o consolo.
E sobre a mesa familiar,
onde a face da ausente não se apaga,
os pés da morta
vivos como peixes.

Poema

A conspiração dos movimentos,
a clausura da forma,
as palavras apenas balbuciadas
e já amadurecidas pelas experiências.
Depois a sucessão dos dias
- longos, intermináveis -
os acontecimentos
- cruéis e indecifráveis -
os elos que te ligam ao destino de Tróia
os cadernos escolares onde te antecipas ao tempo
e te perdes entre mil sugestões.

Nada podes reter,
- ó nada podes,
aprisionar a ti,
guardar à sombra
do teu incerto e vário caminhar.
Outros dias virão
- longos, intermináveis, -
e em cada um, do anelo despojado,
te celebras em rugas e lembranças.

É certo que estes passos são teus
como tua esta cidade sem segredos.
Mas,
onde te levarão eles?
para o café,
para o enterro de tua namorada,
para os muros de Susa ou de Persépolis?

Eis o tempo
dirás
entre suspiros
e enquanto a noite vai
mais te projetas
nesta bruma de sono que te faz em pó.