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Les
Evenements
Havia o céu - eis tudo
(e um azul
incompatível
com a minha dignidade
de poeta
sufocado
pêlos acontecimentos)
No teu seio, de pé, o Minotauro,
e a paz que me ofertavas - tão impura -
mergulhava no mundo das raízes.
Havia a catalogar os nomes,
(desde Adão ao último da Silva)
os dias,
(amontoados à sombra de uma solitária
inquietude)
as raças,
(segundo as suas características mais pronunciadas:
o estúpido, o neutro, o bem-amado)
Havia a considerar o trágico e o grotesco
(as cartas,
os aniversários,
o velho álbum de fotografias
onde ao virar da página
perdia-se a fralda e a castidade)
os fantasmas,
(rigorosamente classificados segundo a ordem e a
hierarquia)
as doenças,
(observadas pela maior ou menor frequência
dos desesperos
ou diagnosticadas pela relativa fidelidade
ao último poema)
Depois o abandono,
completo,
absoluto,
(nem um sopro de fé para deter-me,
nem um- lenho de cruz para deitar-me) |
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A
Linha Imaginária
Vida
suplementar,
tão próxima de ti,
tão evidente,
nas dobras deste enigma sereno.
Um pensamento só, voltar à infância,
um desejo qualquer, basta a esperança,
e refloresces em dádivas e gestos.
Este braço de mar é teu, - podes guardá-lo,
esta paz,
este azul,
este piano,
esta nesga de céu que o vento espalha.
Tudo tão próximo de ti,
tão ligado ao teu cotidiano,
ao teu suor diurno,
às tuas vigílias,
às tuas palavras que emprestas
uma outra significação.
Só agora percebes
a tua absurda neutralidade
diante deste fim de tarde,
deste sino que é a tua primeira
e única
memória musical,
desta noite,
caindo leve
sobre a tua cidade.
Só agora buscas o espelho
que procuravas evitar,
só agora tentas restabelecer
todos os elos que ainda justificam tua mísera
existência, reconstituir todos os fatos,
- mesmo os não evidentes -
o Fiat,
a Paixão,
os elementos,
o riso do amigo mais amado.
Só agora te permites a inutilidade
deste gesto fraterno;
só agora ousas confessar
a saudade
que há tanto tempo agasalhaste na sombra,
- de ti mesmo,
- dos teus brinquedos favoritos,
- da mansa voz
do teu primeiro amor.
Só agora te serves desta aurora,
tão próxima de ti,
tão evidente,
nas dobras deste enigma sereno.
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ODE
Os
dedos contam as ondas,
os minutos talvez,
jamais o anelo
Podes marcar a face disfarçada
a barba,
os bens,
todos os sonhos,
mas escravos do real só te aceitamos
na tua farda de pêlos,
sangue,
e ossos.
Quando recrearás a trança libertária
o horizonte do mito,
o Deus negado,
a tela do perene e do intocável?
Quando libertarás a página e o relógio,
o ser distante que revel condenas
ás arestas da ruga e aos frutos sazonados?
Quando,
(desde olhar em diagonal ao espelho e à morte)
farás ruir ao peso de teu gládio
e ao sulco de teu grito
as taças do não ser,
o veneno da aurora,
as portas do visível
e do invisível?
Ó jamais seremos sós perante a Fonte,
jamais seremos nós e a ti mostramos
o sorriso de "clown" que.se reparte
em contorções de esperma,
tédio,
e ódio.
Jamais conservaremos o perfume e a liturgia
e a hora que se esvai não justifica
este desabrochar em cálice e corola.
Não ser,
(embora seja no retrato)
não ter,
(para ao flagelo condenar-se)
não sentir o chamar do céu porque
beleza
e memória de ausências povoada.
Estamos sós,
bem sei,
e como é noite
arrancas o teu mundo no arbitrário
e a poesia morde o que não é.
Quem te susteve o braço suicida:
a ode ou o catecismo?
Quem te ligou à sorte deste povo:
o sonho ou a promissória?
Quem te fez espalmar a mão como inocente
e a cabeça baixar como culpado?
Ó tempo
ó dimensão do exílio e da orfandade
e se não digo eterno,
quase eterno,
deixai toda esperança
" voi che entratte". |
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| Anjo
dos Abismos
OQuero
chegar diante de ti
não como o vulto familiar que doura o teu
sossego,
não como a imagem do sonho
que se perde na bruma,
mas como o fantasma de dentro de ti mesmo.
Quero chegar diante de ti,
e olharás minha longa cabeleira,
minhas faces esvoaçantes,
meus olhos incolores
e adivinharás que atravessei
os limites do eterno.
Ó esta noite todas as luzes estarão
veladas pelo sono,
todos os silêncios serão devorados
pela eternidade,
todas as chagas ressurgirão das dores,
todos os olhos estarão desmesuradamente abertos
mas não poderemos sentir
a Sua presença
porque então passamos à pátria
das essências.
Esta noite chegarei diante de ti,
nossas almas se confundirão na grande viagem,
nossos olhos se alongarão ao paraíso
dos símbolos
onde nasce o grande mar das almas moribundas.
Chegarei sobre a tranqüilidade dos teus cânticos
e te assombrarás com este vulto notívago
de morto
que se suspende milagrosamente além dos tempos
e que conduz as asas multicores
no derradeiro vôo das espécies.
Ó sim sou eu por sobre as nebulosas,
fantasma que povoa quatro mundos,
imagem perdida e mais tarde encontrada
no limitado céu da poesia. |
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Ruy
Barata
(1920-1990)
www.culturapara.art.br/rbarata/ruy.htm |
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