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No processo desencadeado pela
curadoria da mostra "Ogivas" de Acácio Sobral,
realizada em 1996, ficou claro que os experimentos seriam mais produtivos em face do
artista não estar ligado a quaisquer influências externas em sua obra. E isso dava-se
não somente pelo longo trilhar artístico, como também pela maneira que foi sendo
formado esse trilhar; como foi sendo construída a obra de Acácio.
Por um acidente de percurso, por exemplo -, em 84 acabou descobrindo a encáustica, mas
não deu o devido valor, talvez por tratar-se de uma técnica da Idade Média, ou mesmo
anterior a esta. No fundo, ela era perfeita ao artista por tratar-se de um trabalho com a
matéria. Acácio,
já foi dito e redito é matérico ao extremo. Sua produção necessita do contato direto
com os materiais a serem utilizados e a própria reformulação da fala; do dizer de cada
obra, depende muito do que a matéria possibilita. Assim ocorreu com a resina plástica,
enquanto as encáusticas foram deixadas de lado. No entanto, um elemento sempre mostrou-se
forte na obra do artista: a cor, buscada quase sem fôlego nos trabalhos com a resina. O
que entravava o caminhar era exatamente tridimensionalidade. Era necessário retornar à
parede, voltar a tocar em uma superfície e nela trabalhar. Com a premiação no Arte
Pará de 95, com encáustica, ficou mais certo do que nunca que o caminho era
aquele.
A obra de Acácio
hoje busca o desvincular-se de todas e quaisquer influência, inda que a maior venha de si
mesmo, mas não no sentido de aprisionar-se a uma só técnica, ou mesmo a um único
processo e marca. A influência dele para ele mesmo é em face da própria materialidade
da obra e da busca incessante de elementos que traduzam um universo que baseia-se em um
abstracionismo onde linhas, círculos e semi-círculos ainda driblam a visão do
espectador, formando alguma coisa como um painel de alta tecnologia. Não existe, no
entanto a preocupação com a construção de uma obra robótica. Não existe nenhuma
preocupação além da de formar uma leitura distinta da que vinha sendo
executada.
Quando traça as linhas noteadoras do
trabalho, que inclusive o dirigem no corte da cêra, no corte para escamar cada
superfície, Acácio retoma a própria essência de sua arte, a
de executar alguma coisa além de seu próprio pensar. Viver essa experiência de quebrar
o pensamento de um para outro quadro. Por isso a imposição de um quadro vertical em meio
a tantos horizontais; a necessidade de romper com uma visão pré determinada, levando
como quis Longino, ao sublime de vencer a si mesmo, de romper com quaisquer cadeias e ser
absolutamente capaz de se reciclar, se reconstruir.
Reconstrução necessária, Acácio modifica os trabalhos, transforma as superfícies
anteriores, ou subterrâneas e recria um instante onde qualquer cor, qualquer tentativa de
criar uma obra, modifica-se pela que sobrepõe e assim sucessivamente até que se complete
o todo, meio alquímico, como a Obra em Negro, que os monges e os doutos da Idade Média
buscaram como loucos e como tais levados foram à fogueira. Hoje a química de Acácio não permite queima de arquivos, ou de pensamentos, só
possibilita crescimento.
| CLÁUDIO
DE LA ROCQUE LEAL |
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