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(poemas publicados na Revista Cult
edição de dezembro de 1998)

 

Outra manhã

Por trás do verde monte
(não verde-oliva
não-verde-musgo
verde-não-verde
não-verde-mar)

Por detrás do verde monte
(não-verde-mata
ver de perto: entulho)
por detrás do verde-azinhavrado
monte
de sucata, surge sujo

                           grafitado
- cicatrizes, placas, logomarcas
confusa cabala, restos de
cartazes
frases, chagas - crivado de balas

o
sol

      e o fundo
canto imaginário do galo
garganta
             jorrando
do pescoço decepado
(gargalo)
ao esgoto escuro
o sangue
reencarnado:
                   outra manhã no
mundo

Sabá

Na noite surda de tambores
lambo nomes, lâmina e veludo,
iludido pelo sangue do amor
na rosa negra

estrela de granito sobre a erva

o sangue do amor ardendo negro
ao sim sibilo espada adaga farpa
rubra so som do nome decepado
sábadona dança dos escravos

ao céu da noite surda de
tambores

flores pelos no mênstruo sangue
das possuídas, hidras entre as
sombras
crescendo, ao õ da onda, ronda
dos
demônios, domínios da noite

LI SHANG IN, LI-O
E não a vi, não a vejo
                    hoje

Raio parta o vento leste
se não leste
isto: vento

casulo sonoro desenclausurado
para teu olvido

Á tua senda ainda há tempo ?

Sedentos de poeira
os cadarços da partida

Numa estação do Metrô, around

1916 d.c., a parição das
faces na multidão, pétalas
num ramo escuro úmido
dilata a pupila de Ezra,
enquanto outra turba
(a mesma ?) se despetala:
um tiro (a esmo) desfola
a bala a rosa da multidão,
numa estação do metrô,
1998 d.c.

Hong Kong
Paira
       sobre as cabeças
uma alta quantia de estrelas

Na terra
        olhos vendados
onde se lê grafitado: à venda

Sob
o céu
esticado
                - tenda -
o burburinho-mercado
prega
(pregão)
a milhõe$
                  $
                $
              $
                     $
de planetas

- nuvens com etiquetas -
à noite
           op sol é outro especulado

 

Julho

nuvens
           nuvens
                      nuvens

rufando

branca pupila

tambores brancos
- entrando -
velho varão, varando
- fogo branco -

a noite ostra

cobrindo de fina camada branca
a cama da branca
ninfo-suicida

ornando
(flores de gelo)
de branco a branca
ante-sala da morte - a fria
fimmbra dos dias

irmã de outro
frio, de
dentro

in
(pássaro
alça
seu vôo
em br
asa)
verno 

 

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Antônio Moura

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