NAS PRATELEIRAS DOS BRICABRAQUES, as "casas de miudezas" de Belém e mesmo pelas ruas da cidade, Armando Queiroz recolhe os materiais utilizados em seus trabalhos. A cor, a forma imprecisa das utilidades de plástico e aros de bicicleta, bonecos, vidros, imagens de santos, cada um desses fragmentos, emblemas precários da massificação , evoca, para além de seu caráter efêmero, um contexto simbólico próprio. São de algum modo, objetos destinados previamente a uma função. Porém, sob o olhar de Queiroz, essas referências refluem para um campo de indeterminações: função simbólica, função de uso, cor e forma perde suas articulações fixas e, tal como rastros que insinuam na memória conteúdos irrevelados, disparam no artista o ímpeto de apropriação.

Faquinhas, funis, caixa de isopor ou pedaços de arame vão sendo acumulados e mantidos em estado de latência para finalmente serem rearticulados em um campo distinto de sentido. Face à pluralidade de meios expressivos com que nos deparamos na atualidade (e a toda escatologia que atravessa a produção recente da arte) não mais seria possível dissociarmos o modo como a obra é construída da própria poética do autor.

Desenvolvendo uma prática peculiar, com minuciosa intervenções, manipulando e desviando o curso de seus elementos de sedução, de seus bibelôs - cor, forma e referências simbólicas - , Armando e desconstruindo as relações forma/função existentes. Com precisão percorre os volteios do artesanato. Cortando oratórios em embalagens carmin de shampoo, o artista converte a sensualidade da cor em ícone da paixão sublime que atravessa tanto o sentimento religioso, como os afluxos patrióticos provocados, em contexto distinto, pelas imagens clássicas da nossa pintura acadêmica, espalhada pelos livros escolares.

Estes deslocamentos de sentido (como na série com garrafas de água mineral utilizadas pelos meninos de rua de Belém para cheirar cola, ou na penca de bonecos em que sugere-se a miséria física e abandono como fetiche) explicitam o caráter arbitrário da linguagem plástica. Explorar a natureza polissêmica da imagem para redirecionar o glamour dos objetos (fator imprescindível para manter as estratégias de contenção das tensões sociais), tornando os índices irônicos da condição humana, retomadas suas obras através de um imaginário coletivo povoado por anjos, super-heróis ou mesmo grandes artistas.

Neste sentido, a lógica interna da produção de Armando Queiroz, enfatiza a situação de ambigüidade que paira, desde os ready-made de Marcel Duchamp, sobre o objeto artístico. É evidente a compreensão do artista paraense e de todo movimento contemporâneo de exclusão da obra de seu estato quo. A apropriação de materiais que a princípio não respondem em especial a um demanda estética, relaciona-se historicamente à dissolução da tradição imagética ocidental e a industrialização. No caso de Queiroz esta atitude é contaminada por focos de referências plásticas regionais que sobrevivem à margem da assepsia formal que assola nossa visualidade. Ao dispor, por exemplo, no interior de um balde com anil, limões incrustados com cavros da índia, retoma a intensidade da cor e a contingência da arrumação das bancas de frutos, baldes, ervas, toda sorte de miudezas oferecidas no mercado do Ver-o-peso. E é justamente essa articulação entre práticas populares, de domínio público, sem autoria e a depuração formal que sustenta-se a poética de Armando Queiroz.

Os valores plásticos que condicionam a formalização da obra são conquistados de modo análogo ao momento inicial de seu processo de trabalho: por uma apropriação, não mais de objetos, mas dos próprios parâmetros estéticos vigentes em territórios que se estendem para longe e para fora das fronteiras de erudição, nas placas das biroscas, nas latas de óleo, na beleza das prateleiras dos altares de padroeiros nas mercearias. O investimento na formalização vai equilibra-se no âmbito da cultura popular.

Para além das especificidades geográficas, o enquadramento do humano na grade de consumo massificado reproduz uma série de encadeamentos mecânicos de gestos e desejos. A globalização dissemina em toda parte o gosto e os conflitos sociais típicos dos grandes centros urbanos. Visualidades regionais tenderiam a ser expurgadas ou traduzidas para uma estética de caráter global. Entretanto, a contraface de Belém, cidade que risca seus limites contra a mata, o mar, os rios imensos, exibe a imprevisibilade do impulso vital que diante da miséria, extrai a experiência estética da própria adversidade, através de improváveis estratégias de resistência.

O trabalho de Armando Queiroz parte da suposição de que seria possível construir uma síntese entre fluxos culturais aparentemente inconciliáveis. Mas esta se consumaria para além da esfera do discurso. A suspensão do antagonismo entre as duas diferentes dimensões de cultura - uma que emerge da relação com a precariedade e se misttura com as forças da natureza, outra mediada por dispositivos tecnológicos e pelas estratégias da informação globalizadas - , vai se estabelecer em um campo intenso e definitivo para organização das sociedades na atualidade, o da experiência estética, no âmbito do silencioso, porém complexo fenômeno plástico.

LUIZA INTERLENGHI
Julho, 1997.

continua

 


Armando Queiroz
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