entre a vigília e o sonho

foto: W.O. Fotografia ( Octávio Cardoso e Walda Marques )

 

Belém, 9 de março de 1997

Cara Dina:

Como colocar em palavras as sensações que nasceram em mim enquanto olhava para tuas telas ? Estava lá, no meio delas, e delas emanavam cores francas, que explodiam em raios azuis, ou um branco novo, despudorado ("El Greco" !, dissestes), havia muita água e tovelinhos que deixavam destroços, formas quebradas, formas fugidias, transparência e memória também.

Haviam relevos e depressões - abismos (?) - nas outroras superfícies planas dos quadros.

Havia também muito ar circulando entre os quatro ângulos das telas, sopro de vento, aura amável e ventania brava.

Havia vida latejando e também coisas muito antigas, como um caminho percorrido de muito longe, há muito tempo, deixando suas marcas, rastros, pinceladas.

Havia força e beleza da criação orgulhosamente ostentadas em cada pedaço de tela.

Que mais posso dizer de teus quadros ? Eles estão aí.

Um abraço agradecido da
Maria Silvia Nunes

Dina Oliveira, Apresenta sua pintura mais recente e revela as atuais tendências e orientações de sua atividade artística. Em exposição anterior já nos havia oferecido o espetáculo, de magnífica e poderosa visão plástica, de puro amor pela matéria em sua estrutura íntima, sua integridade e acidentes, transmitindo-nos aquilo que Gilio Dorfes qualificaria de uma excitante e provocadora "Vontade Tactil".

Na presente exposição abrem-se para nós, agora, perspectivas de novas e promissoras intenções em sua pintura, sem, no entanto, haver ruptura com sua produção passada, mas aceitando, também, a inclusão da figura, afastando-se , portanto, da abstração rigorosa que vinha praticando. Parece-me de excepcional importância esse começo de recente fase da pintura de Dina Oliveira. É a "nova figuração", o aparecimento da figura como inspiradora e reveladora de valores plásticos, não significando com isso, como poderíamos incorretamente supor, um simples retorno à Natureza e ao homem com fontes primárias e insubstituíveis de motivação pictória nem, tão pouco, a volta do "realismo visual", ou da "imitação". O que acontece, realmente, é o abandono de uma abstração exclusivista pelo reconhecimento de inegável presença afirmadora do mundo e do homem. É isso que faz parecer, em alguns quadros da pintora, uma figuração que nós chamaríamos de poética. A artista parece, no momento, desprender-se da superstição de um abstracionismo dogmático e ortodoxo, aceitando, dialeticamente, a "nova figuração", como outros pintores já o fizeram, na evolução atual do mais significativo e importante dos movimentos contemporâneos, consequência última da grande revolução estética realizada pela Arte Moderna no nosso século XX.

Francisco Paulo Mendes.

DESACATO (óleo s/ tela - 150x200cm - 1997)
DESACATO (óleo s/ tela - 150x200cm 1997)

Oscilam esses quadros de Dina entre a vigília e o sonho na vigilia intelectual das cores com formas puras e o sonho tantas figuras do real: ruas, portas, navios e rios confundidos à reminiscência de outros pintores ( o gigantismo de Rubens, a selvageria cromática de Turner).

Aqui, quanto maior a argila artística da abstração, mais serve para destacar a emersão de pedaços de realidade, como um sonho que nos assombra.

Belém, 17 de março de 1977
Benedito Nunes.

...Dina costuma dizer que se for capaz de captar a verdade existente numa minúscula semente em fase de brotar e passá-la plasticamente para a tela terá conseguido passar a verdade do todo de sua gigantesca Amazônia.

...Dina e a Amazônia são algo tão uno que por qualquer detalhe que ela a represente, ambas, a artista e a Amazônia estão representadas, atávica, telúrica, amorosa e verdadeiramente.

Peter Cohn
(Fragmento do texto A VIDA,
in ARTE & ANTIGUIDADES, ano 2 nº 6)

APARIÇÃO (óleo s/ tela - 200x150cm - 1997)
APARIÇÃO (óleo s/ tela - 200x150cm 1997)

DINA: FORÇA e MOVIMENTO: POESIA

Todos os pincéis. E o corpo todo inacabando-se.

A teia é o que se vê: Se faz. Ateias
o abismo dessa pele. Tocas
a flor do orgasmo
o ânus sinuoso da beleza.

O corpo. Por ele cantas.
Cresce nele um sopro - um olho roxo
escorre o seu discurso
o lume de teus dedos que te escrevem Ouro

desmoronando gozo.

Tudo é interdito. Ou não se vê - tão perto

- teu país-paul, terra de raízes
dociácida espuma, esponja, teu suor e mancha.
Lilás o branco deste campo atravessando
alga amarela, talvez vermelho ser
contra o medo:
motim
navio
boca

e o frio silêncio tátil duvidando-nos.

mar. 97
Max Martins

Sou como um espelho
que olha o avesso
e calado
interpreta o inverso
pois
se a realidade é torta
quando acorda
revira os olhos
e descobre
os prédios da cidade
*(Natal / 1988)

Jaime Bibas
* Dina: Talvez um velho texto,
possa "falar" por mim, hoje.

Sem conciliação ou apaziguamento, Vida e Morte rolam neste tablado. As tintas que o atiçam mobilizam meus sentidos para o corpo a corpo que percorre, em pinceladas, os campos desta tela, deste quadro. Desarmam-me as estratégias da luz, dos claros, dos gritos de guerra afogados em sangue.

Curvo-me diante desta tela. Dobro os joelhos e a fronte. Rendo-me.

Belém, março /97
Maria Lúcia Medeiros

BARRANCOS (óleo s/ tela - 100x120cm - 1996)
BARRANCOS (óleo s/ tela - 100x120cm 1996)

 

Dina Oliveira
(091) 3244-5925

 

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