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Há
muito o que se conhecer na literatura contemporânea. Nem preciso
desenterrar os clássicos. Existem clássicos vivos e inacabados.
O paraense Vicente Franz Cecim é um deles. Caso não
tenha ouvido falar sequer uma vez deste autor, desde já o
invejo. Sinto ciúme porque bem que gostaria de lê-lo como
se nunca houvesse o lido, guardar o mistério fundador, o impacto
da primeira viagem. Cecim foge dos esquadros, escolas literárias
e questões de vestibular, gerando seus antecessores no futuro.
Ele se retira do livro para o leitor ficar à vontade. Instaurou
a literatura fantasma, aquela que não morre porque sempre
está se reinventando. Seu livro é invisível e os personagens
assistem ao relato. |
Vicente
Franz Cecim arrebatou a atenção rigorosa de Benedito Nunes, Leo
Gilson Ribeiro, Deonísio da Silva e Moacir Amâncio que não cansam
de sublinhar sua prodigiosa odisséia. Recebeu o Grande Prêmio
de Crítica da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA),
em 1988, pelo conjunto da obra, e a Menção Especial no Prêmio
Literário Internacional Plural, no México, em 1981. Integra
a trinca sinfônica da narrativa brasileira, ao lado do gaúcho
João Gilberto Noll (Canoas e Marolas) e do pernambucano Fernando
Monteiro (A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro).
Criador
de 11 livros reunidos em dois volumes, Viagem a Andara
(1988, 386 p.) e Silencioso como Paraíso (1994, 315 p.),
ambos da Iluminuras, acabou de lançar Ó Serdespanto (279
p.) em Portugal, pela editora Íman. Mal saiu da prensa, ganhou
acolhida eufórica de Eduardo Prado Coelho, um dos principais ensaístas
portugueses, e foi eleito um dos melhores de 2001 na terra
de Fernando Pessoa pelo jornal O Público, de Lisboa.
Sua
ficção poética está ambientada em Andara, vilarejo que transfigura
a Amazônia, com anjos deserdados, mulheres que levitam e animais
escuros. É um universo peculiar do autor, como Macondo a García
Márquez ou Yokonapatawpha a William Faulkner.
Só
que Andara não é uma cópia da Amazônia. Ao invés de regionalizar
a fala, universaliza o timbre. Suas figuras carregam todas as
línguas no fluxo de consciência. São pensadores da mais alta estirpe,
às vezes mudos, outras loquazes, tendo o desafio de coexistir
com o inferno e o paraíso na terra e abrir espaço entre as sombras.
Falam sem a boca. Estão progressivamente em movimento. Trânsito
e transe. Aprendem a voar durante a queda.
"Tu
haverias de querer saber se a solidão é um homem, é um osso ou
animal". Andara significa uma cidade/floresta que caminha
no caminhante. Não é habitada, pois é ela que povoa seus passageiros.
Uma
das grandes diferenças com Cobra Norato, do modernista Raul Bopp,
escritor que também se alimentou do folclore amazônico, é o tratamento
verbal. Ó Serdespanto não busca o humor e o pitoresco, e sim a
estranheza. Apresenta uma carga intensa de suspense, de vigilância
intelectual, de assombro metafísico e de veracidade, mesmo no
sobrenatural. Ao contrário da trama tradicional que reproduz ações
pela linguagem, a linguagem é a única ação.
Deslizando
entre a prosa, ensaio e poesia, Cecim oculta-se na claridade.
"Apedrejados com os frutos, doendo/ de tanto ver." Velamento
e desvelamento contínuo. Rumina as palavras como coisas e pertences
primitivos, articulando neologismos (amanhedescendo) ou fusões
mágicas. Ele adere à volúpia das metáforas (planície das escamas,
vento da voz). Concilia ceticismo de um filósofo e a inquietação
musical de um poeta. Suspendendo o tempo, as histórias começam
do meio, à semelhança dos poemas épicos.

Ó
Serdespanto provoca a partir do título. É ser-de-espanto, sede
de espanto. Une o mais alto - asa - com o mais baixo - serpente.
Multiplicidade e encantamento. Age com o movimento circular de
parábolas e fábulas sussurradas ao pé da fogueira. O círculo sonoro
e hipnótico de algo repetido até exaustão, até o dormir das cinzas.
Ó Serdespanto diz: "um fogo sempre se acende para contar histórias".
Antes, em Viagem a Andara, o escritor já crepitava: "enquanto
um fogo ainda lhe dá uma voz". Trata-se de uma reflexão que
ensina a dobrar a consciência sobre as imagens, a dobrar a dobra.
"A luz é de murmurar", exigindo a proximidade para ser
confidenciada.
O
alfabeto de Andara carrega sentimentos maiúsculos e minúsculos,
o infinito ínfimo. À maneira dos românticos e místicos, Cecim
fala da Morte, Compaixão e Sombra com letras maiúsculas, diferenciando
as imagens coletivas das individuais. A narrativa é uma abertura
para a descoberta interior. Compreender o mundo que está dentro
do silêncio, nunca fora. Filósofos e teólogos como Mestre Eckhart,
Kant, Plotino, Angelus Silesius, entre outros, aparecem como guias,
confirmando a iniciação da travessia, que consiste em "atravessar
o que nos nega, para chegar ao sim". O sim não é recusar o
mundo para imaginá-lo, mas deixar o mundo imaginar o homem.
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